Sob curadoria de Paulo Nazareth, os artistas Adán Vallecillo, Alejandro de la Guerra, Ana Tomimori, Aníbal Lopez, Bruno Baptistelli, Carolina Cordeiro, Edgar Calel, Jennifer Paiz, Jorge de Leon, Luana Vitra, Marcel Diogo propõem leituras viscerais sobre a condição latino-americana em tempos de crise, ruína e reinvenção.

A Mitre Galeria, de Belo Horizonte, inaugurou a exposição coletiva Marabunta, que reúne 12 artistas latino-americanos em um diálogo urgente sobre violência, memória e reconstrução social. Com curadoria de Paulo Nazareth e texto curatorial do pensador guatemalteco Leonel Juracán Lemus. A mostra apresenta esculturas, pinturas, instalações e intervenções que tensionam os limites entre arte, política e justiça.

Participam da exposição os artistas Adán Vallecillo, Alejandro de la Guerra, Ana Tomimori, Aníbal Lopez, Bruno Baptistelli, Carolina Cordeiro, Edgar Calel, Jennifer Paiz, Jorge de Leon, Luana Vitra, Marcel Diogo e o próprioPaulo Nazareth. A exposição propõe uma reflexão crítica sobre os legados coloniais, a desigualdade social e a crise ecológica que marcam o presente latino-americano, ao mesmo tempo em que aponta para formas de resistência e reconstrução coletiva.

“Marabunta”, termo que designa um enxame coletivo e voraz de formigas, oferece um espaço de encontro para vozes diversas, onde experiências pessoais e políticas se entrelaçam para revelar as fissuras de uma realidade marcada pela violência cotidiana, pela expropriação de territórios, pelas heranças coloniais e pela devastação ambiental. Como essa força natural, a exposição simboliza tanto o caráter disruptivo quanto a urgência de reorganização e resistência diante dos escombros deixados pelo modelo econômico e social vigente.

A exposição “Marabunta” fica em cartaz na Mitre Galeria, em Belo Horizonte, com entrada gratuita, até 27 de setembro. E na Philos você lê com exclusividade o texto curatorial da exposição:

MARABUNTA, UM ESPAÇO PARA REIVINDICAR JUSTIÇA?

Na sala onde se realizam as reuniões dos últimos graus da maçonaria, o piso xadrezado já não é decorado com quadros pretos e brancos, que representariam a natureza dual do entendimento humano e a passagem pela luz e pela escuridão ao longo da vida, mas sim com quadros brancos e vermelhos, simbolizando a busca pela verdade e a reconciliação dos “sangues” da espécie humana. Já que, supostamente, quem tenha alcançado um conhecimento profundo da política, da ciência e da história, tem a capacidade e a obrigação de guiar um conjunto de comunidades rumo a uma ordem harmônica, mesmo que estas estejam dispersas e, por vezes, em confronto. 

Sirva a menção desse outro sentido de “sala” e “quadro” como uma aproximação ao que, de alguma maneira, também se procura nesta “sala de exposições” de caráter artístico: reunião de diferentes posições políticas, experiências de vida e aproximações a uma “matéria”, cujo objetivo primordial é oferecer um panorama geral do sentir humano em um lugar e uma época. 

Lamentavelmente, o que apresentamos são escombros. E não poderia ser de outra maneira. Encontrando-nos como hoje estamos, à beira de uma mudança forçada na forma como a economia se organiza em nível global, da decadência do modelo republicano e de uma crise ecológica sem precedentes, as obras de arte não podem senão atestar a crise. 

Esculturas do que passou a se chamar “criminalidade comum”; reproduções em tela de fotografias de tragédias, mais terríveis na medida em que se tornaram cotidianas; miasmas produzidos pela cultura do adensamento urbano tornados “cores”; fetichização do solo e da arquitetura, enquanto o próprio solo é continuamente expropriado; nostalgias do que somos, com a forma estética do que ansiamos ser e jamais voltaremos a ser. 

Em meio a uma descorporificação da presença, a “reunião” torna-se necessária, porque é o espaço real que está se esgotando: o social e o natural. E nada pode a arte contra esse medo, que se percebe claramente em tudo o que agita a cultura, porque a técnica, o intelecto, o comércio… eram formas de construir um espaço comum e justo, ou simplesmente formas mais sutis de violência? 

Estamos tão habituados à desapropriação que, diante de cada repetição do roubo, apenas agradecemos que não tenha sido também a vida. Tão acostumados a sermos assassinados em massa e a esquecer os caídos que, ao ultrapassar certa quantidade de vítimas, o alarme se desativa e voltamos, como animais a remexer nossa miséria e esperar a morte.

De fato, o sonho de um amanhã melhor se desvaneceu, ao menos aquele que nos foi prometido pelo capitalismo ocidental e sua acelerada revolução fabril. Os que padecemos de seu colonialismo hoje podemos olhar sem medo para a ociosidade cotidiana: coçar-nos, suar e limpar o sangue; voltar a falar daquilo que o mundo civilizado considerou alheio, domínio da morte. Onde o espaço físico da experiência sirva para nos reconhecermos uns aos outros.

A arte, como mais um resquício do culto ao ego e à propriedade privada, hoje deve olhar para a terra, porque o resto do roteiro já sabemos de cor: a queda do império, a perseguição aos fracos, o assassinato em busca das “matérias-primas”.

Leonel Juracán Lemus
San José Pinula, Guatemala

O curador Paulo Nazareth

A Mitre Galeria, fundada em 2023 por Rodrigo Mitre, surge com o compromisso de contribuir para um imaginário social diversificado e efervescente no Brasil, e com a firme crença na prática artística como um motor chave para a transformação positiva do indivíduo e da sociedade. A galeria vem articulando propostas que ativam o cenário das artes contemporâneas em Minas Gerais, no Brasil e além, com um grupo de artistas de diferentes gerações, formações e práticas. Com um programa baseado em invenções estéticas que mudam perspectivas, provocando um reexame do passado e da imaginação do futuro, ao mesmo tempo que nos ancoram nas questões do presente, Mitre reafirma a sua busca por iniciar ações instigantes que nos conduzam ao desconhecido, abraçando o mistério como uma força vital.

O ano de 2023 consolida a projeção global da galeria com a participação em importantes feiras e exposições. Entre elas, a exposição individual de Marcos Siqueira na Frieze, em Nova York, e a presença de destaque das artistas Luana Vitra na 35a Bienal de São Paulo e Isa do Rosário na Bienal de Liverpool. Em 2024, a galeria participou pelo segundo ano consecutivo da Frieze NY com um estande solo do artista davi de jesus do nascimento, e ainda nesse ano a Mitre Galeria abre seu segundo espaço em São Paulo, no bairro Jardins, ao mesmo tempo em que expande suas atividades pelo mundo. Em fevereiro de 2025 a galeria abre sua sede em São Paulo e participa de feiras como a Frieze NY e EXPO Chicago, confirmando o seu estabelecimento no circuito nacional e crescimento no internacional.

Obra de Bruno Baptistelli na Mitre Galeria

Serviço: Exposição: “Marabunta”, com curadoria de Paulo Nazareth e texto curatorial de Leonel Juracán Lemus. Abertura: 9 de agosto de 2025, às 11h. Período: 9 de agosto a 27 de setembro de 2025. Local: Mitre Galeria – Rua Tenente Brito Melo, 1217, Barro Preto, Belo Horizonte – MG. Visitação: Terça a sexta, das 10h às 19h | Sábados, das 10h às 16h. Entrada gratuita. www.mitregaleria.com

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